domingo, 9 de novembro de 2008

Sem Título [II]

De manhã, quando despertar,

Olhe pela janela.

Sou eu que lhe chama.


Vamos dar uma volta pela praia,

Sentir a areia nos pés

E, com os cabelos bagunçados de vento,

Correr juntos de encontro às ondas.


E, ao olharmos para baixo

E vermos o astro celeste caído,

Saberemos que está tudo bem.


Vamos rolar na areia quente

E deixar o caranguejo seguir seu caminho torto.

Ria comigo, cante comigo e veja o céu sorrindo conosco.


E, ao elevarmos o olhar

E divisarmos as nuvens brancas,

Sentiremos-nos leves e aptos a voar.

Pois está tudo bem.

(Pois estamos juntos)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sem Título [I]

Dê-me um motivo
Simples e concreto
Para poder acreditar
Que as árvores não falam,
Não sentem nem se importam.

sábado, 13 de setembro de 2008

Vida de Fantasma

Ninguém achou estranho o sumiço de Augusto. De certa forma já esperavam por isso; ele nunca fora dado à conversas, nem tinha amigos. Levava uma vida de fantasma, como costumava dizer Dona Georgina, vizinha da casa ao lado do singelo sobrado em que Augusto vivia.

Augusto acordava às seis da manhã, tomava banho e fazia um rápido lanche antes de ir para o trabalho. Silenciosamente trancava a porta e, mais silenciosamente ainda, voltava depois das oito da noite. Sua rotina era conhecida por todos na Rua das Pedras, rua pacata de um bairro de Belo Horizonte. È claro que parte do conhecimento dessa rotina se devia à Dona Georgina, fã inveterada dos programas matutinos sobre a vida de celebridades. Mas todos faziam as vezes de detetives na rua.

Não se conhecia o seu nome completo. Uns diziam que era Augusto Ferreira, outros, Domingues. Em um ponto toda a rua concordava: ele era um rapaz muito estranho. Parecia não gostar de sair de casa. As raras vezes em que saía à luz do sol, eram para comprar o pão ou o leite que acabara. Nada mais.

Contratara, certa vez, uma empregada para ajudar nos serviços domésticos enquanto estava fora. Não deu outra. Não passava um dia sem que a empregada não fosse atacada com uma profusão de perguntas sobre o seu patrão. “Ele é organizado?”, “Ele gosta de assistir novelas?”, “Tem namorada? Acho ele tão simpático...”, “Pra qual time ele torce? Galo ou Cruzeiro?”.

A empregada contara algumas coisas sobre o seu patrão, pelo menos aquelas às quais tivera acesso. “Ele não é um homem de muitas palavras, se é que vocês me entendem.” Sua casa era mobiliada de forma simples, não tinha uma foto sequer nas paredes descascadas e tinha algumas manias. Não suportava leite quente, tem que ser bem gelado. O café, ao contrário, deve ser quente, muito quente. O pão tem que ser partido em quatro partes simétricas.

Mas a fonte aparentemente inesgotável de informações secou. A empregada fora demitida, para tristeza geral. “Ele disse que não gostava da maneira como tirava poeira dos móveis”, soluçava uma chorosa empregada entre os braços de Dona Georgina.

Augusto trabalhava num banco no centro da cidade. Descobriu-se quando Juca, o dono da padaria em que todas as manhãs Augusto comprava pão, o ouviu dizer ao celular que não iria ao banco trabalhar. A notícia se tornara o assunto da semana. Passou-se a especular qual o seu cargo. Será que era o gerente da agência? “Não,dizia Valéria, advogada aposentada, pelas condições em que vive nunca seria gerente. No máximo ele é office boy.”

Não passou muito tempo dessa grande descoberta e outra bomba. Augusto fora demitido. Seu Juca encontrara um amigo que tinha um filho trabalhando na mesma agência que Augusto. Falou que ele exercia funções administrativas na área da tesouraria. Disse ainda que era separado e tinha um filho pequeno. A sua ex-mulher lhe tomava grande parte do salário. Vivia estressado e, numa recaída, gritara com o chefe e fora demitido por justa causa.

O motivo da briga com o chefe era desconhecido, mas, como era de se esperar, vieram as teorias. Boatos faziam referência a um possível roubo de uma quantia considerável. Algo entre dez e quinze mil reais. Mas logo tudo passou. Augusto não parecia ser capaz de tal coisa. Além disso, seu modo de vida não era de alguém que costumava sair por aí desviando dinheiro.

A demissão o afetara muito. Augusto saia menos de casa – não o viam nem mesmo na padaria. Passou a pedir as compras do mês por telefone, mas como conseguia dinheiro era um mistério. Para muitos ele tinha uma boa fortuna guardada em algum lugar da casa poeirenta.

Após alguns dias ele passou a beber. Era visto com freqüência no Bar dos Coroas. Pedia sempre a mesma coisa: uma dose de conhaque. Pagava com moedas, tinha o dinheiro contado todas as noites.

Exceto numa noite, a noite anterior ao seu sumiço. Depois de pedir a costumeira dose de bebida, começou a conversar com a garçonete. Heloísa era o seu nome. Moça bonita, logo atraiu a atenção de Augusto. Passou a cantá-la. O dono do bar não gostou e pediu para ter mais respeito. Iniciou-se uma briga entre Augusto e o dono do bar. Este ficou com o olho roxo e aquele foi expulso do bar e caiu na sarjeta, onde permaneceu por horas.

Como ele chegou em casa bêbado como estava ninguém nunca descobriu. Só se soube que ele guardou as suas coisas e foi embora. Mas pra onde? Só Deus sabe... O sobrado foi posto a venda e não tiveram notícias de Augusto. Nem se interessaram em ter mais notícias.

Um casal muito suspeito mudou-se para o local despertando interesse. Logo Augusto passou a fazer parte da mitologia da Rua das Pedras. Fato que todos conhecem mas ninguém confirma. Augusto foi esquecido. Sem amigos, sem emprego, voltou a viver a sua vida de fantasma.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Não bata a porta

separação 1

Parece que você esqueceu

Os doces momentos que passamos juntos.

Quando a escada você desceu,

Vi ódio e rancor, não por muitos.

Era para mim

Aquela expressão fria

Que dizia claramente: “É o fim”.

O semblante fechado,

O coração machucado.

Decepcionar-te era tudo que não queria.

Mas agora é tarde.

Você tomou uma decisão.

Vai-te!

Segue teu coração,

Se achas que assim é melhor.

Para mim, tanto pior.

Junte suas roupas.

Se quiser eu ajudo.

Palavras nestas horas são poucas.

O que melhor faço é ficar mudo.

Deixe-me sofrer minha dor.

Remoer a minha moral torta.

Mas por favor,

Não bata a porta...

Outra vez



Parece um pesadelo,

Uma alucinação sem fim.

Deitado em meu quarto de hotel

Vejo-te sob o batente da porta.


Outra vez tento fugir.

Mas tua sombra me persegue.

Miro-te pelos vidros das janelas.

Estás parada na calçada,

Outra vez.


Até quando vou ter que esperar

Que pares de me seguir,

Que pares de me privar

De uma tranqüila tarde azul?


Outra vez vejo-me sozinho,

A andar sem rumo pela avenida.

No distante limiar dos monstros de concreto

Olha-me por tuas fendas.


Aquele sorriso dúbio,

Armadilha em que um dia caí.

Aquele andejar vacilante,

Adágio mortal gorgolejante.


Outra vez nos encontramos.

Desta vez estamos sós.

Suas artimanhas não vingam.

Não tente insistir.


Outra vez lhe digo,

Será somente esta vez:

Deixe-me só.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Tique-Taque




Tique-taque... Tique-taque... O relógio inunda a sala com seu tiquetaquear incessante. Oito da noite. Logo ela virá. A mesa já está posta. Dois lugares prontos, dois pratos postos, dois cálices preparados para receber o vinho. Dois lugares vazios... Olho para o relógio que continua com aquele tiquetaquear contínuo... Tique-taque... Tique-taque... Olho pela janela os carros a passar pela rua, quem sabe num deles ela estará, não, ela não virá de carro, mora perto, virá a pé, são poucas quadras, mas parece tão distante... tique-taque... tique-taque... o tempo passa, o tempo não pára, tique-taque... oito e meia, como ela demora, a comida vai esfriar, espaguete ao molho sugo, seu prato predileto, tique-taque, tique-taque, olho o relógio, quando ela chegará? Do outro lado da rua a campainha toca, será que ela vai tocar a campainha ou entrará com a sua cópia da chave? Não sei, só sei que o relógio continua a me torturar com o seu tique-taque, tique-taque... o que vou dizer quando chegar? “Oi, tudo bem?”, “oi”, “sente-se”, “obrigada”, “você está linda”, “oh! obrigada”, “quer um pouco de vinho?”, “sim, obrigada”, “é um vinho alemão, safra de 1980”, “oh!”, talvez houvesse um oh!, talvez dois, quem sabe... tique-taque... tique-taque... “vamos comer”, “tudo bem”, “fiz seu prato preferido”, tique-taque... tique-taque... “está maravilhoso”... tique-taque... “obrigado”... tique-taque... “um brinde a nós”... tim-tim... tique-taque... tim-tim... tique-taque... olho para o relógio, continua a tiquetaquear, continua a me torturar sem parar, o tempo não pára, eu não paro, quando ela vai chegar? Tique-taque... tuque-tique... téque-taque... tique-taque... tique-taque... a campainha toca... blém... tique-taque... é ela... blém... tique-taque... ela chegou... tique-taque... finalmente o sofrimento acabou... tique-taque... tique-taque...