quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Não bata a porta

separação 1

Parece que você esqueceu

Os doces momentos que passamos juntos.

Quando a escada você desceu,

Vi ódio e rancor, não por muitos.

Era para mim

Aquela expressão fria

Que dizia claramente: “É o fim”.

O semblante fechado,

O coração machucado.

Decepcionar-te era tudo que não queria.

Mas agora é tarde.

Você tomou uma decisão.

Vai-te!

Segue teu coração,

Se achas que assim é melhor.

Para mim, tanto pior.

Junte suas roupas.

Se quiser eu ajudo.

Palavras nestas horas são poucas.

O que melhor faço é ficar mudo.

Deixe-me sofrer minha dor.

Remoer a minha moral torta.

Mas por favor,

Não bata a porta...

Outra vez



Parece um pesadelo,

Uma alucinação sem fim.

Deitado em meu quarto de hotel

Vejo-te sob o batente da porta.


Outra vez tento fugir.

Mas tua sombra me persegue.

Miro-te pelos vidros das janelas.

Estás parada na calçada,

Outra vez.


Até quando vou ter que esperar

Que pares de me seguir,

Que pares de me privar

De uma tranqüila tarde azul?


Outra vez vejo-me sozinho,

A andar sem rumo pela avenida.

No distante limiar dos monstros de concreto

Olha-me por tuas fendas.


Aquele sorriso dúbio,

Armadilha em que um dia caí.

Aquele andejar vacilante,

Adágio mortal gorgolejante.


Outra vez nos encontramos.

Desta vez estamos sós.

Suas artimanhas não vingam.

Não tente insistir.


Outra vez lhe digo,

Será somente esta vez:

Deixe-me só.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Tique-Taque




Tique-taque... Tique-taque... O relógio inunda a sala com seu tiquetaquear incessante. Oito da noite. Logo ela virá. A mesa já está posta. Dois lugares prontos, dois pratos postos, dois cálices preparados para receber o vinho. Dois lugares vazios... Olho para o relógio que continua com aquele tiquetaquear contínuo... Tique-taque... Tique-taque... Olho pela janela os carros a passar pela rua, quem sabe num deles ela estará, não, ela não virá de carro, mora perto, virá a pé, são poucas quadras, mas parece tão distante... tique-taque... tique-taque... o tempo passa, o tempo não pára, tique-taque... oito e meia, como ela demora, a comida vai esfriar, espaguete ao molho sugo, seu prato predileto, tique-taque, tique-taque, olho o relógio, quando ela chegará? Do outro lado da rua a campainha toca, será que ela vai tocar a campainha ou entrará com a sua cópia da chave? Não sei, só sei que o relógio continua a me torturar com o seu tique-taque, tique-taque... o que vou dizer quando chegar? “Oi, tudo bem?”, “oi”, “sente-se”, “obrigada”, “você está linda”, “oh! obrigada”, “quer um pouco de vinho?”, “sim, obrigada”, “é um vinho alemão, safra de 1980”, “oh!”, talvez houvesse um oh!, talvez dois, quem sabe... tique-taque... tique-taque... “vamos comer”, “tudo bem”, “fiz seu prato preferido”, tique-taque... tique-taque... “está maravilhoso”... tique-taque... “obrigado”... tique-taque... “um brinde a nós”... tim-tim... tique-taque... tim-tim... tique-taque... olho para o relógio, continua a tiquetaquear, continua a me torturar sem parar, o tempo não pára, eu não paro, quando ela vai chegar? Tique-taque... tuque-tique... téque-taque... tique-taque... tique-taque... a campainha toca... blém... tique-taque... é ela... blém... tique-taque... ela chegou... tique-taque... finalmente o sofrimento acabou... tique-taque... tique-taque...